Conto Erótico - Pai por acaso - Capítulos 28, 29 e 30


 
⛑ Pai por acaso ⛑
Autora: Wilma Heck

CAPÍTULO 28

BELINDA

Hoje meu dia está cheio. Estou atolada até o pescoço de trabalho. Lúcia até
tenta me ajudar, mas, com todos esses enjoos que está sentindo, não pode fazer
muito. Ainda assim deixei Thiago com ela lá em casa e desci até o mercado para
comprar os ingredientes que faltam para o bolo.
Aproveito para comprar algumas guloseimas paro o meu bombeiro. Se bem
que ultimamente ele está preferindo meus doces. Pego algumas barras de
chocolate, salgadinhos e biscoitos recheados. Tudo o que preciso está no
carrinho. Sigo até o caixa, mas, antes que eu chegue lá, sinto uma mão me
segurando e tomo um susto.
— Enrique? O que... O que faz aqui? — Puxo meu braço. Ele ainda está
com o olho roxo do soco que Daniel acertou.
— Eu te segui! — Ele nem disfarça.
— O quê? Por que está fazendo isso?
— Preciso falar com você. — Enrique aperta meu braço novamente.
— Não tenho nada para falar com você. — O aperto só se intensifica.
— Ah, você tem sim! Ou aquele pirralho que você chama de filho vai
pagar. — Meu coração congela no peito com a sua ameaça.
— Não ouse ameaçar meu filho! — Ele me puxa para um corredor menos
movimentado.
— Quero que me arrume dez mil.
— Está maluco? Nem se tivesse esse dinheiro eu daria a você! —
Desvencilho-me dele e ando com meu carrinho de compras.
— Se você não me der esse dinheiro, eu conto para os avós do menino que
sua amiguinha pagou muito dinheiro para alugar seu útero. Aposto que a velha
me pagaria muito bem por essa informação. — Paro e fico congelada. — A
escolha é sua. — Ele se aproxima e fala no meu ouvido. — Vamos ver o quanto
ama aquele menino. Tem três dias para me arrumar essa grana ou a velha terá
algo contra você no processo da guarda.
— Como você sabe disso?
— Pimentinha... Até parece que não me conhece. Esqueceu que conheço muita gente? Perguntei aqui e ali e pronto. Descobri tudo. Não só isso. Tenho
como provar o que estou falando, então, como é que vai ser entregue? Por você
ou pela velha?
Enrique começa a se afastar.
— Três dias, Belinda. Três dias. E deixe aquele bombeiro fora disso. Se ele
souber, vou na mesma hora entregar o que eu sei para a velha.
— Mas isso é mentira, Enrique! — falo, furiosa.
— Pimentinha, eu sei, você sabe, mas eles não. Imagina o que o seu
namoradinho vai pensar de você quando achar que fez tudo isso por dinheiro.
— Ele não acreditaria.
— Está mesmo a fim de pagar para ver? Pense na decepção.
— Você é um canalha! Odeio você!
— Me odeie, mas me dê o dinheiro. Três dias, Belinda.
Ele sai, deixando-me ali com o coração acelerado.
O que vou fazer? Eu consegui juntar esse dinheiro, mas quero comprar
algumas coisas para a minha cozinha. Como farei isso sem que Daniel descubra?
Estou perdida!
Droga. A gente está tão bem e vem essa desgrama do Enrique para
atrapalhar tudo! Mas e se eu não der o dinheiro? E se Enrique contar essa
mentira para o Daniel? E se ele acreditar? Eu não suportaria ver o olhar de
decepção que meu bombeirão me lançaria.
Amo Daniel. E não é pouco. Ele é o homem da minha vida. Nunca pensei
que fosse capaz de amar tanto assim como o amo. Acho que não suportaria se ele
me deixasse.
E agora, o que faço? Não posso correr o risco de perder meu bombeirinho.
Passo as compras no caixa e volto para casa tão rápido que nem percebo a
velocidade que vim dirigindo. Se Daniel soubesse disso, o resultado seria mais
um sermão sobre direção perigosa e bla bla blá.
Entro sem nem tirar as compras do carro e sigo direto até meu bombeirinho,
que brinca tão inocentemente no cercadinho. Seguro-o nos braços e o aperto
contra meu corpo. Começo a chorar diante da possibilidade de perdê-lo.
— Amiga, o que aconteceu? Por que está chorando? — Choro
compulsivamente e não consigo responder. — Belinda, está me assustando,
amiga! — Ela pega o telefone. — Vou ligar para o Daniel.
— Não! — grito com ela.— Se não me disser o que está acontecendo, pego esse telefone e chamo
toda a guarnição dos bombeiros aqui. — Ela me ameaça. — E acho bom falar a
verdade, pois sei muito bem quando está mentindo.
— Tudo bem! Senta aí. — Lúcia senta e fica me encarando. — Encontrei o
Enrique no supermercado agora.
— O que aquele encosto queria?
— Adivinha? Dinheiro!
— Eu não acredito! Qual foi o argumento que ele usou para te pedir grana
dessa vez?
— Ele disse que tem provas de que eu aceitei dinheiro de Geórgia para ter o
bebê dela. — Começo a chorar de novo. — Quer dez mil ou vai levar isso para
os pais dela.
— Amiga, isso é mentira que eu sei! Como ele pode ter provas de algo que
nunca aconteceu?
— Não sei, mas vindo de Enrique, posso esperar qualquer coisa.
— Mais essa agora. Por que não conta tudo para o Daniel?
— Não posso. O desgramado ameaçou levar tudo na mesma hora para os
pais de Geórgia se eu contar a ele.
— Maldito, cachorro, safado! Já sei! Podemos pegar as armas dos nossos
homens, matá-lo e jogar o corpo no rio.
— Lúcia!
— O quê? Ninguém vai sentir falta dele mesmo!
— Estou falando sério, Lúcia! — Deixo Thiago novamente no cercadinho.
— Tenho que pensar em uma maneira de pagar o Enrique sem que Daniel
descubra, o que é quase impossível.
— Não! Você está cogitando a possibilidade de pagar o maldito?
— O que quer que eu faça?
— Minha ideia ainda parece melhor, mas já que você não aceita... Eu voto
em contar tudo para Daniel e deixá-lo dar uma surra em Enrique.
— Lúcia, você não está me ajudando! — Começo a sentir dor de cabeça,
isso sempre acontece quando eu fico nervosa. O pior foram as náuseas que
começaram quando encontrei Enrique no supermercado. Tenho que correr para o
banheiro e quase ponho o estômago para fora. Saio do banheiro e Lúcia está
parada na porta olhando para mim de um jeito estranho. — O quê?— Bel, você tem vomitado com frequência?
— Sim. Há alguns dias pela manhã. Tenho me sentido mal com frequência.
— Você toma algum contraceptivo?
— O quê? Você acha que... Não. Isso não é possível... — Sento-me no sofá
e coloco a minha cabeça entre as mãos. — Lúcia, minha menstruação está
atrasada! Ai meu Deus. Será?
— Vamos tirar a duvida. Eu ligo para a farmácia e peço um teste. — Ela faz
isso e, enquanto esperamos o entregador chegar, eu ando de um lado para outro.
Thiago ainda é tão pequeno. Não está em meus planos engravidar agora. Acabei
esquecendo-me de trocar o anticoncepcional. Minha ginecologista disse que ele
só faria efeito enquanto eu amamentasse, mas acabei esquecendo.
Daniel sempre fala que quer uma família grande, mas eu queria esperar essa
situação da guarda de Thiago se resolver antes e meu bombeirinho ficar maior.
Mas, pelo jeito, acontecerá bem antes do que planejei.
— É o entregador! — Lúcia sai correndo assim que ouve a buzina, entrando
logo em seguida e me entregando o teste. — Vai logo, amiga! Minha curiosidade
está me matando.
— Tá bem. Vou fazer.
Esses são os três minutos mais longos de toda minha vida, mas enfim olho
o resultado. Positivo. Estou esperando um filho de Daniel. Meu Deus, um filho
do meu amor! Meu coração transborda de alegria, mas também de preocupação
com a ameaça de Enrique e com a briga pela guarda de Thiago. Será que este é o
melhor momento?
— Bel! Por favor, me diga. Qual foi o resultado? — Abro a porta.
— Veja você mesma. — Entrego o teste a ela.
— Eu hein! Você mijou aí, não toco nisso de jeito nenhum. Eca! Diz aí.
— Positivo! Estou grávida!
— Ahh! Vamos ter nossos bebês quase juntas! — Ela me abraça e me solta
assim que percebe o desânimo. — Não está feliz?
— É claro que sim! Ter um filho de Daniel é um sonho, mas com todas
essas coisas acontecendo, não sei se é a melhor hora.
— Menina, do jeito que Dani é com Thiago, ele vai ficar felicíssimo.
— Eu sei, mas acho melhor esperar para contar.
— Belinda, você tem que parar de querer esconder coisas do Daniel. Isso
não é saudável em uma relação. O cara pediu você em casamento! Qualquer um pode ver o quanto ele te ama.
— Acha que não sei? Daniel é maravilhoso e eu sou complicada! —
Começo a chorar. — Eu queria que tudo fosse diferente, queria que Enrique não
existisse, que os avós de Thiago não tivessem retornado.
— O que vai fazer?
— Vou resolver esse problema do Enrique primeiro. Depois conto a Daniel
sobre a gravidez.
— Você quem sabe, mas não concordo!
— Escute aqui, Lúcia, eu te proíbo de comentar qualquer coisa com James.
Sobre a gravidez e, principalmente, sobre o Enrique — falo firme com ela.
— OK. Não vou falar, mas continuo achando que aquela ideia de matá-lo e
jogar o corpo no rio é melhor. — Ela gesticula. — Mas se você prefere assim...
Não está mais aqui quem falou.
— Vamos. Temos muito trabalho. Ainda bem que pegou as coisas no carro.
Obrigada.
— É para isso que servem as amigas.
Passamos o resto do dia trabalhando na entrega que tenho que realizar. Um
bolo de casamento de quatro andares e bem casados, que a noiva decidiu que eu
fizesse. A decoração do bolo me tomou mais tempo do que esperava, eu o fiz
todo branco decorado com pérolas de açúcar, mas o resultado ficou lindo. Agora
é só esperar os rapazes da entrega vir buscá-lo.
Lúcia foi para casa quase sete da noite e daqui a pouco eles virão, então vou
aproveitar e pegar meu bombeirinho para tomar um banho.
Thiago adora brincar na banheira, mas ultimamente só faz isso com o pai.
Encho de água e tiro as suas roupinhas, deixando-o no chão. Ele já está
começando a engatinhar. Retiro minhas roupas e aproveito para me olhar no
espelho enorme que Daniel instalou ali. Fico de lado e observo meu ventre,
ainda não se nota nada. Passo as mãos por ele.
— Meu amor, a mamãe e o papai vão te dar um irmãozinho ou irmãzinha.
Vocês serão muito amigos. — Seguro Thiago e beijo sua bochecha macia. — Eu
te amo tanto, meu docinho. Seria capaz de qualquer coisa por você, meu amor.
Lágrimas insistem em rolar por meu rosto. Não posso perdê-lo. Não posso.
Entro na banheira com meu bombeirinho, que começa a brincar com a água.
— Que banho gostoso! — Ele pega um dos seus brinquedos e me entrega.
— Para mim? Own, meu fofinho. — Começo a lavar seu corpinho cheio de dobrinhas. Suas perninhas são rechonchudas e seus cabelos estão cada vez mais
claros. Ele está adorando o banho e faz uma festa ali comigo.
— Gosta disso, não é? Seu pai deve deixar você jogar água por todo lado.
— Ele só resmunga seu mamá, dadá e papá.
Depois de meia hora, saímos da banheira. Eu visto um robe e o enrolo na
toalha. Quando estamos devidamente vestidos, preparo seu jantar e ele cochila
enquanto come, de tão exausto que está. Levo-o para cama e volto para a sala.
Ligo a televisão porque preciso me distrair um pouco. Nem começo a assistir e
meu telefone toca. Olho para a tela e vejo um número desconhecido.
— Alô?
— Oi, pimentinha! Só estou ligando para te dizer que quero meu dinheiro
depois de amanhã. Me encontre no estacionamento do supermercado onde te vi
hoje, às três da tarde. Não esqueça... Se o bombeiro souber, você fica sem seu
bebezinho. — Ele desliga.
Jogo o celular no sofá. Pronto. Minha paz acabou e começou a choradeira
novamente. Acho que devem ser os hormônios. Tenho que me acalmar, pois
Daniel não pode perceber meu nervosismo.
Meu telefone toca novamente e a foto do meu bombeirão aparece no visor.
— Oi, amor! — Tento soar normal e tranquila.
— Morrendo de saudade do meu bombom. Como está?
— Bem. Só um pouco cansada.
— Queria estar aí para te fazer uma massagem com final feliz.
— Daniel, não fala assim!
— Por quê? Você não vai conseguir dormir pensando em mim te beijando,
te abraçando e te pegando de jeito.
— Daniel, para! Posso jogar esse seu jogo, bombeirão. Posso te deixar
imaginando minha boca em você, deslizando bem devagar enquanto geme
baixinho, sentindo minha língua te lambendo todinho.
— Para, para! Brincadeira de mau gosto essa. Agora vou trabalhar com
meu p#u duro o resto da noite.
— Você quem começou, bonitão.
— E já me arrependi. Durma bem. Sonhe comigo.
— Vou sonhar. Beijos. Bom trabalho!
— Se prepara que, quando eu chegar pela manhã, vou te pegar de jeito!— Estou contando as horas, amor.
A vida estava tão boa. Enrique é uma cruz em minha vida. Aquele traste.
Mas não vou esmorecer. Eu o pagarei e conseguirei a tal prova. Meu bombeirão
não precisa saber de nada.
Thiago ficará conosco. É isso. Tudo ficará bem.

CAPÍTULO 29

DANIEL

Chego em casa pela manhã e ouço Thiago aos berros no quarto. Lavo as
mãos e corro até lá para ver o que está acontecendo. Ele está no berço, todo
molhado. Seguro-o nos braços e procuro por Belinda. A cama está com os
lençóis bagunçados, mas ela não está aqui.
— Baixinha, onde você está?
— Aqui. — Ouço-a falar do banheiro.
— Tudo bem? — Ela está vomitando? — Abre a porta.
— Só um minu... — Vomita outra vez. Já estou quase arrebentando a porta
do banheiro, quando ela finalmente abre. Seu estado me assusta. Ela está pálida,
com olheiras e cabelos bagunçados.
— Você está horrível.
— Obrigada! — Estende os braços para pegar Thiago, mas não deixo. —
Preciso dar um banho nele, ele está todo molhado.
— Deixa que eu faça isso. O que você tem?
— Só um mal-estar. Ontem experimentei alguns doces e não me fizeram
bem.
— Volte para cama. — Ela vai para nosso quarto arrastando os pés. — É.
Parece que sobrou para mim, garotão. Esse banho será muito rápido, pois temos
que cuidar da mamãe.
Depois que Thiago está limpo e alimentado, deixo-o no cercadinho e vou
até o quarto. Minha baixinha está jogada na cama. Meço sua temperatura com a
mão, mas ela não está com febre.
— Ele já tomou banho? — pergunta, tentando levantar, mas não deixo.
— Sim. Thiago está bem. Quem me preocupa agora é você. O que acha de
irmos até o hospital? Pode ser algum quadro infeccioso. Amor, não podemos
brincar com a saúde.
— Já vou melhorar. Não se preocupe.— Ei, casal!
Lúcia chega já entrando na casa.
— Pode entrar! — Belinda diz.
— O que faz na cama ainda?
— Ela não está se sentindo bem — comento.
— Aquele mal-estar ainda?
— Como assim? — Se eu já estava preocupado, agora piorou. — Está
passando mal desde ontem? Vamos agora mesmo para o hospital.
— Amor, está tudo bem... — Belinda levanta e sai correndo para o banheiro
novamente. Desta vez entro com ela e seguro seus cabelos enquanto seu corpo
convulsiona na tentativa de expelir o que já não existe em seu estômago.
Começo a suar frio vendo meu amor naquela situação. Ajudo Belinda a se
levantar e ela vai até a pia para escovar os dentes.
— O creme dental acabou. Pega outro para mim, amor?
Abro o armário e, quando vou pegar o creme dental, encontro uma caixa de
teste de gravidez, de dentro cai um palito com o sinal de positivo. Belinda vê e
fica ainda mais pálida. Meu coração dá um salto no peito.
— Isso é seu? — Ela termina de enxaguar a boca e me encara com aqueles
enormes olhos castanhos.
— Sim... — diz em um fio de voz, agora sem me encarar.
— E quando pretendia me contar? — Tento fazer uma cara de zangado, mas
por dentro estou eufórico. Sinto o coração batendo acelerado, tamanha minha
alegria. Eu vou ser pai outra vez!
— Eu ia esperar passar a audiência pela guarda de Thiago. Eu juro que ia
contar, amor. Só que estamos com tantos problemas... Descobri ontem. Ainda
não assimilei direito.
Abraço-a e a beijo.
— Sabe o quanto está me fazendo feliz? Mais um filho! Era tudo o que eu
queria. — Nós nos beijamos novamente. — Temos que agilizar a reforma da
casa e torcer para estar tudo pronto para quando o bebê nascer. O que você
prefere? Eu quero uma menina com a pele igual à sua, assim terei dois caramelos
em casa. Estou falando demais, eu sei. É porque minha felicidade é tanta que não
cabe em meu peito. — Belinda não parece feliz, pelo contrário, vejo
preocupação em seus olhos. — Não está feliz?
— Estou. Muito. Um filho seu e meu é uma bênção, só estou ansiosa com a audiência. Está tão perto.
— Fique calma. O advogado já falou que temos grandes chances de vencer.
— Ergo seu queixo para que ela encare meus olhos. — Confie em mim. Thiago é
nosso filho e ninguém vai tirá-lo de nós. — Ela se aninha em meu peito e eu a
ajudo a sair do banheiro. Encontramos uma Lúcia sorridente no corredor.
— Você sabia, Lúcia?
— Daniel, quem você acha que comprou o teste? Estou tão feliz por vocês!
Nossos bebês vão nascer pertinho um do outro. — Ela nos abraça. — Vou levar
o Thiago para dar um passeio. O tio James está precisando treinar um pouco com
você, meu amor. — Beija a bochecha de Thiago. — Tudo bem para vocês? —
Olha para mim e Belinda.
— É claro. Assim posso cuidar da mãe dele direito. — Lúcia instala a
cadeirinha no carro e leva Thiago.
— O que acha de um banho de banheira para relaxar? — Abraço-a por trás
e beijo seu pescoço.
— Você quer se aproveitar de mim — fala, toda manhosa.
— Eu te devo uma massagem com final feliz, lembra? — Viro-a para mim
e a beijo.
— Essa dívida eu vou cobrar com juros, bombeirão. Você fica muito
gostoso com essa farda.
— Não sabia desse seu fetiche por farda, baixinha.
— Nunca tive, mas aí um bombeiro muito lindo e gostoso entrou na minha
vida e isso mudou. Quando te vi naquela varanda, no dia que cheguei aqui,
milhares de fantasias com você preencheram minha mente. Eu queria saber se
usava cuecas vermelhas. — Ela esconde o rosto em meu peito.
— Eu imaginei meu p#u todinho na sua boca linda.
— Daniel! — Belinda me dá um tapa.
— O quê? Não estamos sendo sinceros? — Sua expressão muda. — O que
foi?
— Nada! Só pensando no quanto minha vida mudou no último ano. Tenho
um filho, estou esperando mais um e tenho o melhor homem do mundo ao meu
lado. — Beijo-a apaixonadamente. — Quero que me ame, Daniel. Bem devagar.
Quero guardar o dia de hoje para sempre em minha memória.
Agora ela que me beija. Andamos até o quarto sem parar de nos beijar e
Belinda começa a me despir, desesperada, beijando-me no processo. Depois tira a camisola, agarrando-me novamente.
— Eu pensei que queria isso bem lentamente. — Afasto-a para olhar em
seus olhos. —Vem cá. — Sento na cama e trago-a para sentar sobre minhas
pernas. — O que foi? Por que sinto que está se despedindo de mim? — Ela
começa a chorar. Eu sabia que tinha algo errado. — Amor, olha para mim. Me
diz o que está acontecendo.
— É essa audiência. Tenho tanto medo. Agora meus hormônios estão
novamente bagunçados. Me desculpa por estragar nossa manhã juntos.
— Ei, nada poderia estragar este momento. — Descanso a mão sobre seu
ventre. — Aqui está crescendo um pedacinho seu e meu. Essa é a melhor notícia
dos últimos tempos. Vamos nos deitar. — Levo-a nos braços e deito-a
delicadamente na cama.
— Fica aqui comigo?
— É claro, meu amor. Vamos dormir abraçadinhos, mas antes... —
Ajoelho-me ao lado da cama e falo pertinho de sua barriga. — Oi, meu amor.
Quem está falando aqui é o papai. Quero que saiba que eu já te amo muito.
Sempre vou te proteger. Esperamos por você com muita ansiedade e seremos os
melhores pais do mundo! — Deposito um beijo em sua barriga. Belinda já está
se desmanchando em lágrimas.
— Que lindo! — Eu a beijo e me deito ao seu lado, ficando de frente um
para o outro.
— Obrigado. Esse é o melhor presente que você poderia me dar. — Ela
segura meu rosto entre as mãos e me beija levemente nos lábios.
— Eu te amo.
O beijo a seguir incendeia nossos corpos e estamos novamente
desesperados um pelo outro. Retiro a sua calcinha e minha cueca, e ficamos
ambos livres. Pele contra pele. Encaixo-me sobre seu corpo, beijando seus lábios
apaixonadamente, e deslizo dentro dela bem devagar. Vamos fazer amor
lentamente, como ela me pediu minutos atrás, sentindo cada sensação em sua
plenitude.
— Eu te amo, Belinda. — Sigo beijando-a. Aquilo que era para ser lento e
calmo se torna cálido e apaixonado. Ela inverte nossas posições e se torna dona
da situação, cavalgando em meu corpo com seus movimentos sensuais,
deixando-me louco de desejo. Como sempre deixa quando fazemos amor.
***
Deixo-a dormindo na cama e vou até a cozinha para ver o que tem de comida. Belinda sempre deixa algo pronto para eu comer quando chego do
quartel. Encontro uma bandeja com vários pedaços de brownies. Preparo uma
bandeja com algumas frutas do jeito que ela gosta, pego o iogurte que ama e ligo
para a floricultura, pedindo para entregaram duas dúzias de rosas vermelhas.
Quero presentear Belinda por ter me feito o homem mais feliz do mundo.
Termino de preparar tudo e levo a bandeja para a cama.
— Amor, você tem que se alimentar. — Ela acorda e senta na cama.
— Quanta coisa gostosa, mas acho melhor ficar só com o iogurte. —
Começa a comer e eu me acabo neste brownie.
— Tenta comer as frutas também — insisto.
— É melhor não abusar. Não quero me sentir mal novamente.
— Tudo bem. Temos que marcar uma consulta para ver como está nossa
garotinha.
— Pode ser um menino.
— Tenho certeza de que é uma menina! Será minha princesinha, assim
como Thiago é meu príncipe.
— Own... Você é tão fofo e doce. Uma confeiteira como eu só poderia amar
um torrão de açúcar como você. — Ela me beija. — Hum... Este brownie está
bom mesmo.
— Como tudo o que você faz.
— Já me sinto melhor. Quero levantar. Pega uma camiseta para mim?
Vou até o armário e procuro uma camiseta. No meio das roupas dela
encontro uma das minhas blusas da corporação.
— Amor, e essa blusa? É minha, não é? — Mostro para ela.
— Sim, mas não é uma blusa qualquer. Essa é aquela que você enrolou
Thiago quando nasceu. Eu a guardo com o maior carinho. — Belinda pega e a
cheira. — Às vezes, quando você está no trabalho, em suas noites intermináveis
de serviço, eu durmo abraçada nela.
— Eu te amo, sabia?
— Eu sabia! — Ela me beija e coloca minha blusa. — Dorme. Você ficou
acordado a noite toda. Quando acordar vai ter um almoço bem gostoso do jeito
que gosta.
— Vou mesmo. Além de trabalhar muito no quartel, eu ainda tive que
trabalhar dobrado aqui. — Belinda me joga um travesseiro.— Convencido sim, mas te amo mesmo assim.
***
Acordo com um cheiro maravilhoso de carne preenchendo o ar. Visto um
moletom e vou direto para a cozinha. Belinda está no telefone e nem me vê
chegando.
— Eu vou entregar amanhã! Sim. Não precisa ficar me ligando. — Fico
ouvindo a conversa até que ela desliga, deixando o celular na bancada, e toma
um susto quando me vê. — Dani, que susto!
— Quem era?
— Um cliente chato. Tenho que fazer essa entrega amanhã e ele fica
ligando toda hora. Deixa para lá. O almoço está pronto. Quer comer agora?
Ela está estranha. Mudou de assunto rapidinho. Depois eu tiro essa história
a limpo.
— Olá, família! — Lúcia chega com Thiago aos berros. — Acho que ele
quer o papai.
Ele se joga em meus braços e se acalma na hora.
— Acabei de constatar que o tio James não leva jeito nenhum para cuidar
de crianças. Ele foi trocar a fralda de Thiago e acabou todo molhado.
— Ele fez isso comigo também! — Eu e Lúcia caímos na gargalhada.
Belinda continua alheia à nossa conversa. — Amor, tudo bem?
— Sim! Só estou com fome!
— Hum... Eu também. Esse cheirinho está maravilhoso. Gente, nunca senti
tanta fome — Lúcia comenta.
— Lúcia, onde está o James? — pergunto.
— Ele está no carro falando no telefone com o chato do Kléber. Aff.
— Kléber é um cara legal. Só é jovem e imaturo demais. Eu o ajudei a
entrar no Corpo de Bombeiros. Ele estava perdido depois que o pai e a irmã
morreram em um assalto, se envolveu com as pessoas erradas. Levou um tiro
com dezessete anos e eu prestei socorro.
— Nossa, Dani, eu não sabia — Belinda comenta.
— Só James, o capitão e eu sabemos. Ele não gosta muito de tocar no
assunto. Isso já tem quatro anos. Hoje é ele quem sustenta a mãe, as duas irmãs e
dois sobrinhos.
— Uau! Quem diria? — Lúcia senta enquanto Belinda deixa as travessas na mesa. — James, até que enfim! O que Kléber tanto queria?
— Nada não! Daniel, quero falar com você. — Olho para Belinda e Lúcia,
que nos olham desconfiadas. — É importante.
— Tudo bem.
— Amor, não demora. O almoço já está na mesa. — Dou um beijo em
Belinda e vou até lá fora com James.
— O que foi?
— A irmã mais nova do Kléber está em uma enrascada.
— A Larissa? Mas o que uma menina de dezoito anos pode ter feito de tão
grave?
— Ela se envolveu com um cara mais velho e ele engravidou a garota.
— Kléber já sabe quem é?
— Um viciado em jogo frequentador da Columbia.
— Logo um cara de lá.
— O pior é que Kléber está caçando o sujeito. Estou com medo de que ele
faça uma besteira.
Já conhecemos o histórico de Kléber e sabemos do que é capaz.
— Vou conversar com ele assim que chegarmos ao quartel.
— Obrigado, cara! Quem sabe ouve você, já que te admira tanto.
Finalmente o entregador chega com as flores. Eu pago e levo
imediatamente para Belinda.
— Daniel, que flores lindas! — Ela pega o buquê enorme e cheira.
— Isso ainda é pouco pelo tanto que você me fez feliz hoje. — Ela já está
com lágrimas nos olhos e me beija.
— Estou por fora! O que está acontecendo?
— James, a Bel está grávida. Nossos bebês vão nascer um pertinho do outro
—Lúcia fala antes que possamos responder.
— Parece que eu não vou ser o único a perder noites de sono e trocar
muitas fraldas. — James tenta retribuir o terrorismo que fizemos com ele no
hospital.
— Meu caro amigo, você só esqueceu que Belinda e eu temos experiência
com isso. Já temos um filho. Tudo será infinitamente mais fácil para nós.
— Nisso você tem razão. — James coça a cabeça e ri.O celular de Belinda toca. Ela olha o visor e não atende.
— Não vai atender, amor? — Já estou começando a ficar com a pulga atrás
da orelha com todo esse mistério.
— Agora vamos almoçar. É só um cliente, falo com ele depois. —
Conheço-a muito bem e sei que está mentindo, mas não vou fazer uma cena na
frente de Lúcia e James.
Comemos, mas não consigo disfarçar meu incômodo com a situação. James
e Lúcia também perceberam, pois foram para casa assim que acabaram de
almoçar.
— Belinda, o que está acontecendo? Que porra de telefonema misterioso é
esse?

CAPÍTULO 30
BELINDA
— Daniel, do que está falando?
— O telefone toca, você não atende e fica toda nervosa. Nunca te vi
deixando atender um cliente. — Ele fica nervoso.
— Daniel, amor, já te falei. É um cliente chato. — Sinto-me péssima por
estar mentindo, mas não posso contar a verdade. E se Enrique realmente tiver
alguma coisa que nos prejudique na audiência? Não posso permitir. Tenho que
manter a calma. Não posso deixar Daniel desconfiar. — Eu vou fazer essa
entrega amanhã e tudo isso acaba. Não se preocupe. Por que não dorme um
pouco? Leve Thiago. Ele já está cochilando no cercado. — Beijo-o, mas sei que
ainda está desconfiado. — Vou fazer uma torta de chocolate. Quando você
acordar, já estará pronta.
— Tudo bem. Estou cansado, mas não pense que me comprou com essa
torta. Não mente para mim, baixinha. — Ele me dá um beijo. Quase posso sentir
o gosto amargo da minha mentira. Meu coração aperta. Não posso mentir, mas
não posso falar a verdade. Ele se vira para ir ao quarto.
— Dani! — chamo, e ele vira para mim na mesma hora.
— Hã? — Vejo seus olhos azuis, encarando-me com tanto amor. Não posso
dizer.
— Durma bem. — Sorri, aumentando ainda mais a minha culpa. Assim que
ele fecha a porta depois de pegar Thiago, permito-me desabar na cadeira. Sinto
meu corpo cansado, minha cabeça pesada e meu coração apertado. Tenho que
resolver logo esse problema do Enrique. O traste decidiu aparecer para fazer as
únicas coisas que sabe: destruir a minha vida e arruinar minha felicidade.
Chego a cogitar a ideia de Lúcia. Valha-me Deus! Que loucura é essa que
passou pela minha cabeça? Seria menos um mau caráter no mundo, mas
precisaríamos bolar um plano bem amarrado para não ter furos. Não! Para com
isso, Belinda. Você tem um bebê de colo e outro no bucho. Respiro fundo,
buscando de alguma maneira controlar minha recente mente criminosa. Deus me
perdoe por esses pensamentos.
Estou nessa situação horrível e ainda sou obrigada a mentir. Também tem o
fato de que estou sem garantia nenhuma de que ele tem alguma prova, mas seja oque for, não posso correr o risco. Aquele cão é esperto, se ele descobriu sobre a
gravidez e todo o procedimento, pode muito bem ter forjado provas.
Que droga! Estava bom demais para ser verdade. Meu bombeirão e eu
estávamos tão felizes, mas quando vou aprender que isso não é para mim?
E agora tem esse bebezinho em meu ventre. Uma mistura de nós dois. Por
Thiago, Daniel e esse bebê, eu vou fazer isso. Vou acabar com essa história de
uma vez. Pego minha bolsa e vou até o banco para tirar o último centavo das
minhas economias que devem dar mais ou menos o valor que Enrique pediu.
Vou até o carro e saio. No meio do caminho, meu telefone toca. É o desgramado.
— O que você quer, Enrique? — pergunto imediatamente.
— Os planos mudaram. Quero esse dinheiro hoje às três horas no
estacionamento do supermercado. Se até três e quinze você não aparecer, levo
tudo o que tenho para a velha. — O canalha desliga.
Corro igual uma louca até o banco. Entro na bendita porta giratória e acabo
saindo novamente. Estou louca. Minha cabeça está a mil. Quando entro no local,
dou de cara com uma multidão maior que a fila da cesta básica que o prefeito
dava no ano passado. Vou até o painel para pegar uma senha e arrasto a de
número 0562. Senhor, me ajude neste momento. Vai dar três horas e eu ainda
não irei ter saído daqui.
— Moça! — Abro os meus olhos antes de encerrar minha desesperada
prece. Olho para o lado e um velhinho está inclinado para mim, tampando a boca
com a mão para disfarçar a fala.
— Oi?
— Dez conto para você virar minha acompanhante agora mesmo.
— O quê? Meu senhor, você me respeite. Sou uma mulher casada e tenho
dois filhos. Trabalho o dia todo. Que proposta do maligno é essa? O senhor
passa fora daqui ou eu sento a mão na sua cara agora mesmo.
Seguro a alça da minha bolsa e me afasto. Senhor eterno, me perdoa. Sei
que é um velhinho, mas safadeza tem limite. Estão investindo alto contra minha
vida. Agora até um cão da terceira idade vem tirar minha paz. Não vai dar
tempo, meu Deus. Como eu vou sair daqui antes das três?
— Moça. — Ouço a mesma voz, falhada pela falta de dente, próxima a
mim.
— É o que, senhor? — grito e algumas pessoas me olham.
— Não é falta de respeito. Bem, não muita. Só com as outras pessoas, mas
não com a senhorita. Eu venho todos os dias cedo para vender senha. Tenho dez aqui. Posso fazer uma promoção pela confusão.
Que velhinho mafioso enviado pelos céus é esse?
— Conte-me mais. Seja rápido.
— Faço oito conto para a próxima senha. É pegar ou largar. Preço especial.
— É a próxima? — pergunto, abrindo a bolsa.
— Na sua mão. — Ele me mostra a senha 0103.
— Metade na sua mão e metade na minha. — Não posso brincar com esse
povo trambiqueiro, ainda mais os experientes.
Seguramos um em cada ponta do dinheiro. Depois que eu pego a senha,
solto as quatro notas de dois reais.
— Foi um prazer negociar com você. — Ele sai, tremendo as pernas e se
segurando em sua bengala.
— Olha o absurdo. — Ouço a mulher que está do meu lado reclamando
com outra. Saio na velocidade do foguete em direção ao guichê que aparece
indicando no painel.
— Boa tarde. — Uma jovem de origem oriental me atende.
— Boa tarde! Eu quero fazer uma retirada.
— Qual o valor?
— Dez mil.
— Senhora, para grandes quantias é preciso ter a autorização do gerente.
Disponibilizamos até cinco mil na boca do caixa — fala educadamente.
— O quê? Preciso de permissão para pegar o meu dinheiro? — Já vou logo
falando, indignada.
— Desculpe, senhora, mas são regras do banco. Não se preocupe. Não vai
precisar pegar a senha para atendimento com ele. Vou dar um jeito. Só um
minuto.
A mulher levanta e sai por trás do balcão do caixa. Ela é boazinha.
— Me acompanhe — diz, levando-me até a mesa do gerente.
— Olá, Belinda. Como está o Daniel?
— Bem, Dante. Eu realmente estou com pressa. Preciso tirar dez mil agora
para uma emergência. — Dante é um amigo de Daniel. Bem que eu queria não
ter que passar por ele, pois o homem com certeza vai abrir essa boca grande e
contar para o Daniel. Mas aí eu já resolvi tudo e ele poderá saber.
— Está com algum problema? Posso te ajudar? — fala com toda aquela calma. Ele já está me tirando do sério com seus cabelos loiros penteados para
trás e cheios de gel, e ainda com seus óculos e essa roupa engomadinha.
— Escute aqui, Dante, não vim até aqui para uma sessão grátis de terapia!
Quero meu dinheiro! E rápido, OK? — falo um pouco mais alto do que deveria e
todos olham para mim. Respiro fundo. — Por favor, pode me dar o meu
dinheiro? — digo, agora em um tom controlado.
— É claro. O dinheiro é seu. Só tome cuidado andando por aí com essa
quantia.
— Eu vou.
Estou com o dinheiro em minha bolsa. Saio do banco e, assim que passo
pela porta giratória, esbarro em alguém e algumas cédulas caem no chão junto
com minha bolsa.
— Não olha por onde anda? Kléber?
Merda. Outro bocudo. São dois passos para frente e dois para trás. A maré
de azar está lutando feio contra a sorte que chegou com o Daniel. O que esse
desequilíbrio quer me dizer?
— Belinda? Desculpa. Você veio tão rápido que não tive tempo de desviar.
—Cato o dinheiro do chão e levanto.
— Tudo bem. Não foi nada.
— Por que está tão nervosa?
— Nervosa eu? Imagina! — Tento disfarçar. — Só estou com pressa. Outra
hora a gente conversa. Até! — Nem olho para trás. Caminho até o meu carro,
entro e dou partida. Merda! São duas e quarenta e cinco. Não vou chegar a
tempo. Bem na hora Enrique me liga.
— Espero que esteja a caminho, pimentinha.
— Já estou indo, seu filho do cão. Chego em quinze minutos — falo
enquanto dirijo. Corro o risco de tomar uma multa, mas isso é o de menos. Já
devo ter passado por dois sinais vermelho.
Avisto o estacionamento, entro, diminuindo a velocidade, e procuro por
Enrique. Encontro-o usando um boné e óculos escuros como se esse fosse um
disfarce muito bom. Idiota. Estaciono e saio do carro.
— Veja só, pimentinha... Continua uma mulher de palavra. — Ele se
aproxima demais e dou um passo para trás.
E você o mesmo traste da desgraça. Só mentalizo para não piorar as coisas.
— Trouxe o que te pedi? — Ele retira os óculos, colocando-os sobre a aba do boné.
— Sim, mas antes quero as provas que disse tem.
— A mesma marrenta de sempre, não é? Por isso me apaixonei por você,
minha pimentinha.
— Sai para lá, urubu! Despacho de encruzilhada. — Empurro-o e ele ri com
aqueles dentes perfeitos. O canalha é bonito, por isso caí na lábia dele. Mas
ainda assim nem se compara ao meu Dani.
— Ainda me fazendo rir. Continua a mesma, não é? Aposto que sente falta
de quando eu te pegava de jeito. — Ele me agarra pela cintura e seu rosto está
muito, muito próximo.
— Me solta, desgraça! — Esperneio e ele mantém seu aperto em meu
corpo.
— Acho que não quero só dinheiro em troca das provas. Tendo você assim,
tão gostosa e cheirosa, me bateu uma saudade. — Cheira meu pescoço.
— Me larga! Além de canalha e safado vai virar estuprador? Porque só
assim para eu ficar contigo novamente. — Ele me solta. — Quero logo as provas
que você tem!
— Me mostra o dinheiro. — Pego a bolsa e mostro o dinheiro para ele.
— Olha que beleza! — Enrique tira um papel do bolso. — Pega. Esse é um
extrato bancário da sua amiga em que ela deposita uma quantia em dinheiro para
você. Esse extrato é maior do que os outros. Não sei se chegou a ver o dinheiro,
mas ela depositou em uma conta em seu nome. — Pego o extrato e realmente
tem uma grande quantia. Cem mil.
— Eu nunca vi esse dinheiro! Esta conta nunca foi minha.
— É o seu nome que está aí. Agora me passa esse dinheiro. — Entrego para
Enrique a bolsa com o dinheiro e ele me puxa para perto, agarrando-me
novamente. — Pimentinha, você vem comigo. Achou mesmo que te vendo
assim, tão gostosa, eu ficaria só na vontade? Vamos até o meu carro. Se pensar
gritar, saiba que tenho uma cópia do extrato e só vou entregar depois que passar
o final desta tarde com você. Vamos ver se continua tão fogosa quanto antes.
— Desgraçado. Filho de uma quenga! Me solta! — grito e começo a
esmurrá-lo. — Socorro! — grito novamente. Então vejo Kléber partir para cima
de Enrique.
— Solta ela, vagabundo! — Os dois entram em luta corporal e Enrique me
empurra contra o carro. Bato minha barriga com muita força e acabo caindo.— Enrique, seu desgraçado! Você engravidou minha irmã, maldito! —
Kléber parte novamente para cima de Enrique, que pega uma arma. — Covarde!
Além de destruir a vida de jovens inocentes ainda é assassino!
— Kléber, eu só quero ir embora e a Belinda vem comigo. Vem,
pimentinha. — Faço que não com a cabeça. — Então seu amigo vai sofrer. Ou
vem comigo ou atiro nele.
— Belinda, não vai! Eu já liguei para o Daniel. Ele deve estar chegando. —
Meu coração acelera. Daniel aqui e Enrique com essa arma. Sinto uma pontada
na barriga e me curvo, segurando meu ventre. Kléber se distrai e Enrique o
acerta uma coronhada, derrubando-o na hora.
— Vem comigo! — Ele segura em meu braço e me arrasta pelo
estacionamento. Tento fugir dele, mas a dor que sinto é muito forte.
— Belinda!
É Daniel.
Ele grita e vem junto com o segurança do supermercado atrás de mim.
Junto todas as minhas forças para me desvencilhar de Enrique, empurrando-o, e
saio correndo. De repente, sou atingida em cheio por um carro. Ouço o grito de
Daniel enquanto meu corpo rola pelo chão. Sinto que desta vez foi muito, muito
grave.
Meu Deus, não me deixa morrer!
Meu corpo todo dói, mas o pior é a dor em meu ventre. Sinto como se
estivesse sendo rasgada por dentro. É uma dor dilacerante. Não tenho forças nem
para gemer.
— Meu amor! Meu amor, não se mexa! Fica paradinha! — Daniel afaga
meus cabelos e começa a chorar. — Fica calma.
— O bebê... — balbucio.
— Ele vai ficar bem. Vocês vão ficar bem! — Ele pega o celular. — Aqui é
Daniel Mendonça, tenente do Corpo de Bombeiros, preciso de uma ambulância
no estacionamento do supermercado Master's. Isso. Esse mesmo. É urgente!
Minha mulher foi atropelada e ela está grávida. OK. — Sinto meus olhos ficando
pesados. — Amor, fica acordada. Não dorme! — Ele continua de joelhos ao meu
lado. Vejo Kléber chegando cambaleante.
— Me desculpa, cara! Eu tentei, mas quando cheguei o cara estava
agarrando ela. Ele tinha uma arma...
Sua voz começa a ficar distante.— Belinda! Belinda! Amor, não fecha os olhos, por favor! — Daniel
suplica, mas não consigo mais ficar acordada. Estou tentando. — Seja forte por
mim, por nosso filho!
— Nosso bebê...
— Sim. Nosso bebê. Fica acordada. Força, meu amor. — Ouço o barulho de
sirene. — Graças a Deus!
Os socorristas me ajeitam na maca.
— Tome cuidado porque ela está grávida. — Sou colocada dentro da
ambulância. Daniel fica ao meu lado e segura minha mão o tempo todo enquanto
sou examinada. — Amor, não dorme! — fala, percebendo que fecho os olhos.
Mais uma vez junto todas as minhas forças e mantenho os olhos abertos, mas
enxergo pouco. Está tudo girando ao meu redor.
— Ai! — Minhas mãos vão para o meu ventre.
— Já estamos chegando. Fique calma. Meu Deus, não permita que aconteça
nada de grave! — Daniel chora, ainda segurando minha mão.
— Amor, eu não aguento mais... Está doendo muito. — Ele me abraça.
— Com licença, tenente! Precisamos levá-la — fala um dos socorristas para
Daniel. Eles me tiram de dentro da ambulância e sou levada para dentro do
hospital. Procuro por Daniel e vejo que está ao meu lado na maca.
— Aqui o senhor não pode entrar, tenente! — Ele fica e sou levada para a
emergência.
Lá dentro, vejo tudo embaçado, mas consigo distinguir dois médicos vindo
me atender.
— Paciente grávida vítima de atropelamento. Ela sente dor abdominal e
possui risco de aborto. Sem sinal de trauma ou lesão, mas temos que examinar
mais detalhadamente. — Ouço alguém falar. — A paciente está com
sangramento. Risco de aborto confirmado.
Meu coração congela. Não... Não posso perder meu bebê.
— Salvem meu bebê, por favor. — Começo a chorar desesperada.
Sinto uma pontada em meu braço e meus olhos ficam pesados. De repente,
tudo fica escuro e em silêncio.
Abro meus olhos e pisco várias vezes para que minha visão fique normal,pois vejo tudo embaçado. Minha boca está seca e minha garganta também. É
como se estivessem cheias de areia. Observo o quarto com paredes brancas,
olhando ao redor, e encontro Daniel fitando a janela com as mãos nos bolsos.
— Amor... — chamo.
Ele olha para mim e noto seus olhos inchados e vermelhos. Seu semblante
está cansado e posso ver muita tristeza em seu olhar. Sinto que uma adaga está
sendo cravada em meu coração, perfurando-o lentamente. Só consigo imaginar a
razão de sua tristeza. Lágrimas caem de seus olhos e tenho dificuldade para
respirar devido à pressão que sinto em meu peito.
Daniel se aproxima e senta na cama, segurando minhas mãos.
— Amor. Nosso bebê... Ele sobreviveu?

Continua amanhã.....

Curtam e comentem o conto no grupo, estou sentindo falta da participação de vocês....

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